A revolucionária esquecida

por Henrique Marques-Samyn

Janaína Amado (org.). Jacinta Passos, coração militante: poesia, prosa, biografia, fortuna crítica. EDUFBA/Corrupio, 2010.

Jacinta Passos é um daqueles raros casos em que a trajetória biográfica e a literária despertam igual interesse. É difícil não admirar a vida dessa mulher que, para ser fiel a si mesma, ousava desafiar abertamente consensos e preconceitos, assumindo consequências que iam desde a censura familiar e social até a perseguição política. De fato, constam de sua biografia elementos que renderiam uma comovente obra romanesca: louváveis convicções morais (que levaram Jacinta, oriunda de uma tradicional família baiana, a recusar sua herança e a mudar-se para um então paupérrimo povoado sergipano a fim de conscientizar politicamente os pescadores que lá viviam − e que viriam a traí-la); uma assombrosa independência intelectual (que a levou a renunciar ao catolicismo que ardentemente professara até a juventude em prol da militância comunista); um temperamento singular (que a fez desafiar todas as convenções sociais que condenavam a mulher a uma posição submissa, defendendo sua autonomia profissional e sua liberdade sexual); e uma morte trágica, sucumbindo a uma esquizofrenia para a qual, na época, não havia um tratamento adequado.

Uma autora de pleno domínio formal, dotada de uma singular competência para traduzir o ideário político em imagens poéticas, esquivando-se aos riscos do panfletarismo

Para além dessa extraordinária trajetória biográfica, Jacinta Passos foi a autora de uma vasta obra literária − dedicou-se principalmente à poesia, mas assinou também contos, minicontos e mesmo uma peça de teatro − e de importantes textos críticos e jornalísticos − que tratam da poesia brasileira nas décadas de 1940 e 1950 e da situação feminina, por exemplo. Seu lugar no cenário intelectual brasileiro pode ser mensurado por sua fortuna crítica, da qual constam textos assinados por nomes como Antonio Cândido, Sérgio Milliet e José Paulo Paes. Levando-se tudo isso em conta, impressiona perceber que Jacinta é, hoje, uma escritora desconhecida, situação em que talvez permanecesse ainda por longos anos, não fosse a publicação deste monumental Jacinta Passos, coração militante: poesia, prosa, biografia, fortuna crítica. Organizado por Janaína Amado, filha de Jacinta e professora aposentada da Universidade de Brasília, a obra tem um valor imensurável: com quase seiscentas páginas, o volume reúne toda a obra publicada pela poetisa, incluindo textos literários e jornalísticos, além de manuscritos inéditos; uma valiosa fortuna crítica, incluindo textos produzidos especialmente para a edição; uma biografia, assinada pela organizadora, construída com base em entrevistas e numa ampla documentação; farta iconografia e, finalmente, um amplo levantamento bibliográfico.

A estreia de Jacinta Passos em livro ocorreu em 1942, com a publicação de Nossos poemas, livro dividido em duas partes: a primeira, “Momentos de poesia”, que reunia 38 poemas de Jacinta; e a segunda, intitulada “Mundo em agonia”, que trazia obras assinadas por seu irmão, Manuel Caetano Filho. Obra de uma autora jovem, ainda em busca de uma voz própria, mas indiscutivelmente promissora, mereceu a atenção de destacados nomes da crítica literária baiana daquela época: Carlos Chiacchio qualificou-a como autora “sem nenhuma pretensão a gênio, mas com toda a espontaneidade de alma”; Lafaiete Spinola censurou o gosto pela abstração da jovem poetisa, a seu ver artista “senão de momentos grandiosos, pelo menos de delicados painéis”, nela ressalvando “um defeito raro nas mulheres”, a seu ver: o de pensar. Aos olhos contemporâneos, essa parte da produção de Jacinta Passos se revela em grande parte datada, por muito devedora da estética em cujo âmbito foi concebida; não obstante, ali encontramos um poema como “O canto de amanhã”, menos metafísico e mais próximo do tom político em que a poetisa encontraria seu temário principal (“Eu seja apenas uma coisa entre as coisas de que os homens se servem, / entre pedras, ferro, pai, mãe, / ouro, árvores, filhos, irmãos e companheiros, / entre animais, carvão, petróleo, alavancas e máquinas. / Minha cabeça se curve ao peso da fria injustiça organizada e aceite / e receba a piedade como último insulto.”).

Em 1945, surge Canção da partida. Publicado em tiragem de 200 exemplares, numerados e assinados pela autora, a esmerada edição trazia 5 desenhos de Lasar Segall preparados especialmente para a obra. Esses poemas registram uma mudança fundamental no lirismo de Jacinta: é perceptível a renúncia à artificiosa dicção da obra anterior, que culminava num lirismo vago e de pretensões totalizantes, e a consequente construção de uma poesia que adere ao mundo, incorporando elementos biográficos. Essa guinada não passaria despercebida aos atentos olhos de Antonio Candido, que acusa o afastamento da “austeridade formal” e da “elevação de tom” dos poemas anteriores de Jacinta Passos, revelando sua preferência pelos poemas de metro curto, nos quais a autora “revela uma imaginação mais fresca e um encantamento rítmico cheio de seiva folclórica”. O melhor do livro, a meu ver, são justamente os poemas em que se estabelece a síntese entre a dicção mais concreta e menos dilatada e aquele impulso para o universal, matizado por uma inabalável esperança política, essa já presente na obra anterior; disso resultam excelentes poemas como “Navio de imigrantes” (“Arca ou navio, / nau ou galera, / vens doutra era, / séculos a fio. // Qual o teu rumo? // Levas o sumo / da dor humana / que se supera, / vida ou quimera.”) e “Sangue negro” (“Terras curvas do Recôncavo / onde adormece o oceano, / de tuas veias abertas / escorre / o petróleo baiano, / sangue negro do Brasil.”).

Os dois últimos livros de Jacinta demonstram o amadurecimento de tendências já presentes em Canção da partida. Poemas políticos, de 1951, é o raro registro de uma poesia fortemente engajada e marcadamente histórica que, no entanto, preserva sua força estética, como lemos em “O rio” ou “O enforcado” (“Aqui é Brasil. A infâmia outra vez. Te lembras, Tiradentes? / o quinto do ouro, a família real, e o vinte e um de abril? / Eu sei do medo e da cobiça. O demônio nascendo / no turvo. O demônio da guerra / nascendo no cérebro dos cavaleiros do lucro: − Não podemos parar.”); traz o livro também “Canções líricas”, entre elas a extraordinária “Canção atual” (“Quanto deus caiu do céu / tanto riso neste chão, / fala de servo calado / pisado / soluço de multidão”.). A Coluna, de 1975, é um pujante épico que, em quinze cantos, resgata a Coluna Prestes − admirável tour de force que coroa a obra de Jacinta Passos, revelando uma autora de pleno domínio formal, dotada de uma singular competência para traduzir o ideário político em imagens poéticas, esquivando-se aos riscos do panfletarismo. Transcrever fragmentos da obra resultaria na fragmentação de um discurso poético que prima por sua consistência e unidade, razão pela qual não isso não será feito aqui.

Resgatada do esquecimento, a poesia de Jacinta Passos vem recebendo estudos que reavaliam um conjunto de parâmetros críticos que, por longo tempo, ensejaram o seu reconhecimento como obra menor; exemplo disso são as pioneiras avaliações de Carlos Chiacchio, Lafaiete Spinola e Sérgio Milliet, que ainda a leram como expressão de um essencializado “lirismo feminino” (a expressão é de Chiacchio; Milliet louvou em Jacinta o fato de ela não “se esquecer” de que é mulher, ao passo que Spinola, como anteriormente mencionado, nela censurou o “defeito” de pensar, que considerava “raro” nas mulheres). O volume organizado por Janaína Amado traz uma amostra dos novos estudos dedicados à obra da autora baiana, que tendem a repensar o seu lugar na história da poesia brasileira; esse, no entanto, é um trabalho que apenas se inicia. É chegada, enfim, a hora de reler Jacinta Passos.

[versão revisada e ampliada de texto originalmente publicado no Jornal do Brasil]

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Uma resposta para A revolucionária esquecida

  1. Francisco Marcelo Cabral disse:

    Jovens críticos dispõem agora em Clave Crítica de um espaço para exercitar sua especialidade, para além das resenhas sumárias dos jornais, que sempre parecem textos contaminados seja pela amizade do resenhista com o autor, ou com editora.
    Parabéns a Henrique Marques-Samyn por essa iniciativa que amplia o foro das discussões sobre a literatura brasileira, num espaço aberto aos que atuam com a visão moderna e afinada dos textos sobre os quais opinam.

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